Quais são as habilidades do advogado do futuro?

A inovação do direito passa, sim, pela tecnologia, mas não apenas por ela. Um texto de Marie Cortez
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Texto de Marie Cortez, Consultora de inovação do Mattos Filho Advogados para o Observatório AB2L

Como toda data comemorativa, o Dia do Advogado (que ocorreu na última semana) é um ótimo momento para refletirmos sobre como temos conduzido nosso trabalho, sobre a forma que temos gerado valor para os nossos clientes e, é claro, sobre como enxergamos o futuro da advocacia. E quando falamos do futuro, é preciso refletir sobre como incorporar inovações tecnológicas à prática do dia a dia, com o objetivo de elevar a qualidade dos serviços jurídicos prestados aos clientes, que têm demandado cada vez mais um melhor entendimento global do cenário de negócios, visão estratégica e maior rigor analítico e estatístico.

Um relatório da Clio feito em 2020 com profissionais dos Estados Unidos, empresa que oferece soluções baseadas em nuvem, indicou que 85% dos advogados estavam usando softwares para gerenciar suas práticas jurídicas[1]. Outra pesquisa conduzida pelo Wolters Kluwer Future Ready Lawyer 2021, constatou que 60% dos escritórios planejam aumentar seus investimentos em novas tecnologias entre 2021 e 2023[2]. Adicionalmente, um relatório da empresa de consultoria Gartner indicou ainda que, até 2025, o investimento em tecnologia jurídica terá triplicado em comparação aos números de 2021, e que os departamentos jurídicos terão automatizado 50% de seu trabalho até 2024[3].

Já aqui no Brasil, quando o assunto é inovação no mundo jurídico, ainda há muito a caminhar. Apesar de o número de startups com foco em soluções jurídicas no Brasil ter aumentado em 300% entre 2017 e 2019, conforme levantamento da AB2L, em abril de 2020, apenas 22% dos escritórios de advocacia utilizavam serviços de tecnologias jurídicas mais complexas, segundo levantamento do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (Cesa)[4]. Um outro estudo, publicado em 2018 pela Fundação Getúlio Vargas[5], já indicava que apenas 26% dos escritórios utilizavam softwares para geração automática de documentos, que são mais complexos, enquanto os softwares de gestão processual, que são mais simples, eram mais comuns: 77% dos escritórios os utilizavam. 

Em outro levantamento feito pela AB2L no início deste ano, constatou-se que 57,6% dos advogados ainda não sabem com propriedade o que é uma lawtech[6]. Ou seja, de nada adianta termos um mercado farto de soluções, é necessário que haja um aumento massivo na educação do mercado jurídico. 

Futuro é sinônimo de tecnologia?

Não há dúvidas de que aqueles que quiserem se destacar, terão que incorporar novas tecnologias nas suas análises e entregas, sejam elas de cunho contencioso ou consultivo. No entanto, não basta contratar as melhores soluções disponíveis no mercado, se o advogado não estiver disposto a desenvolver novas habilidades que estiveram por muito fora do seu radar, como letramento digital, análise de dados, pensamento analítico, transdisciplinaridade, as quais foram apontadas pelo Fórum Econômico Mundial[7] como habilidades essenciais para os profissionais que quiserem se manter competitivos no mercado.

Com relação à transdisciplinaridade, vale destacar que, para aqueles que quiserem se diferenciar, será necessário ir além das disciplinas jurídicas. O advogado do futuro precisa aprimorar essa habilidade se aprofundando em outras áreas, como administração, negócios, marketing, processos de inovação e, é claro, novas tecnologias. Quando desenvolvemos essa competência, conseguimos identificar fatos isolados, analisá-los, criar relações entre eles e questioná-los. Vale acrescentar que, cada vez mais, os advogados externos serão procurados pelas grandes empresas para resolverem questões altamente complexas que não possam ser resolvidas por um time interno. 

Assim, a transdisciplinaridade com a tecnologia é uma alta tendência que deve estar no radar. O advogado do presente que quiser se manter competitivo, terá que lidar com uma quantidade cada vez maior de dados, o que requer a capacidade de analisá-los de forma analítica e estratégica. É importante que os advogados conheçam ao menos algumas das linguagens de programação, para compreenderem como as soluções de mercado funcionam, para que possam aderir às tecnologias que façam mais sentido para as atividades que desenvolvem.

O cliente é inovador

Quando analisamos a partir da perspectiva dos clientes corporativos, verifica-se que eles estão incorporando novas tecnologias em seus departamentos jurídicos e, é claro, têm demandado essa nova forma de atuação dos escritórios. De acordo com o estudo da Análise Executivos Jurídicos e Financeiros, 72% dos departamentos jurídicos empresariais investem até 10% de seu orçamento anual em tecnologia. O levantamento foi feito em 2020 e quatro em cada dez departamentos afirmaram ainda que esses investimentos se intensificaram nos últimos 2 anos[8], o que indica que as empresas estão cada vez mais preocupadas em otimizar e inovar o trabalho jurídico.

A grande reflexão que fica é: se os nossos clientes estão inovando e demandando por inovação, o que nós estamos esperando para acompanhá-los nessa transformação? 

Para que que cada um de nós possa fazer parte dessa transformação, é imprescindível trabalhar o letramento digital e desenvolver a transdisciplinaridade em conjunto com a estratégia e análise de dados, o que possibilitará um atendimento de melhor qualidade com a entrega de soluções mais completas, criativas e inovadoras. Que tal aproveitarmos o Mês do Advogado para iniciarmos essa transformação do nosso mercado?


[1] Disponível em <https://www.clio.com/resources/legal-trends/2020-report/>

[2] Disponível em <https://www.wolterskluwer.com/es-es/know/future-ready-lawyer-2021>

[3] Disponível em <https://www.gartner.com/en/legal-compliance/trends/legal-tech-trends>

[4]  Disponível em <http://www.cesa.org.br/media/files/EBOOKcompressed.pdf>

[5]  Disponível em <https://www.academia.edu/39575688/Sum%C3%A1rio_Executivo_da_Pesquisa_Quantitativa_TECNOLOGIA_PROFIS%C3%95ES_E_ENSINO_JUR%C3%8DDICO_>

[6] Disponível em <https://ab2l.org.br/wp-content/uploads/2022/04/AB2L-ebook-Clientes-Advogados.pdf?utm_campaign=news_090822_-_dia_do_advogado&utm_medium=email&utm_source=RD+Station>

[7] Disponível em <https://www.weforum.org/reports/the-future-of-jobs-report-2020/>

[8] Disponível em < https://analise.com/publicacoes/analise-executivos-juridicos-e-financeiros>

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