Lawtech e legaltech: o que é este mercado e por que é tão promissor no Brasil?

Imagem: Pixabay

Que a justiça brasileira é muito lenta, isso não é novidade. De acordo com o relatório mais recente do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), mais de 77 milhões de processos estavam em tramitação até o final de 2019. Seria preciso seis anos e sete meses para concluir estas ações. É neste território árido que as legaltechs e lawtechs encontram seus potenciais mercados. São as startups que criam soluções para agilizar a vida burocrática em diversas esferas.

Por enquanto, ainda são minoria no ecossistema brasileiro. Este levantamento da ABStartups (Associação Brasileira de Startups) aponta que elas representam 1,62% do mercado. Por outro lado, o CNJ também diz que nove em cada dez ações judiciais são atualmente iniciadas em um computador, um celular ou um tablet. Dez anos antes, a proporção era de uma a cada dez. Ou seja, a demanda existe e é alta.

As companhias já criaram até mesmo seu próprio “clube”, a AB2L (Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs), que reúne empresas, escritórios e autônomos. São mais de 500 associados, dos quais 115 são startups. Elas atuam em temas como automação de documentos, compliance (políticas internas da empresa), monitoramento e gestão de documentos cartorários.

Por que isso é importante?
Atualmente, empresas de diversos portes e órgãos públicos estão atrás dessas startups para conseguirem soluções que otimizem e acelerem nossa papelada. Portanto, processos que antigamente duravam meses ou anos podem levar muito menos tempo. E aquele documento que você precisava tanto para comprar uma casa ou conseguir um empréstimo no banco tende a sair muito mais rápido.

“Você não vai mais pegar em papel, essas coisas não vão mais existir. Os investimentos na Bolsa são todos automatizados, mas a emissão desses papéis ainda é analógica. Mas tudo isso vai ser 100% digital. Startups do setor financeiro vão ter que comprar legaltechs para agilizar processos”, prevê Bruno Rondani, fundador da plataforma 100 Open Startups.

Um exemplo disso é a Jusbrasil, criada na Bahia em 2008 e focada em ser uma plataforma-ponte entre advogados e clientes, além de reunir toda a legislação e jurisprudência existentes de forma acessível. Das mais recentes, dois destaques são a Linte, software em nuvem que pode ajudar o poder público a automatizar contratos e conduzir licitações; e a Docket, que digitaliza e analisa documentos de diversos tipos. Esta última diz ter crescido 176% só nos primeiros seis meses deste ano.

A pandemia de COVID pode ter ajudado neste contexto, já que cada vez mais as pessoas estão evitando sair de casa ou pegar em objetos. “Isso influenciou no ano passado, quando colhemos os frutos da digitalização de processos. Mas em 2021 a gente se especializou em mercados que vêm performando muito bem durante a crise. Foi uma conjunção de fatores”, disse Pedro Roso, CEO da Docket, referindo-se aos setores de imóveis, agronegócio e bancos, principais clientes da startup.

Ainda há um longo caminho a percorrer para as lawtechs e legaltechs acabarem de vez com o papel nos cartórios e arquivos de todas as empresas e órgãos públicos. É preciso, por exemplo, investir na inclusão digital de toda a população brasileira. Este mercado também precisa de mais fôlego: até o momento, a canadense Clio é o único unicórnio (que vale mais de US$ 1 bilhão) deste nicho. “O próximo passo é ter mais investimentos no setor. Esperamos um número maior de IPOs [aberturas de capital na Bolsa] neste cenário também”, afirma Roso.

Texto original de Márcio Padrão, publicado pelo Canaltech.

Comentários

Comentários