Empreendedores desenvolvem software que monitora e prevê resultados de ações judiciais

Raul Figueiredo, 48, é de Marília, interior de SP, e Ricardo Rezende, 48, é do Piauí. Eles se conheceram na faculdade de engenharia em Campinas, na década de 1990, e se tornaram grandes amigos. Após concluir o curso, Figueiredo foi fazer MBA na Suíça e, mais tarde, voltou ao Brasil para se tornar vice-presidente da General Electric da América Latina. Já Rezende voltou ao Piauí, e trabalhou como diretor da Receita Federal do Estado durante alguns anos.

Os dois sempre se interessaram muito por programação e por dados. Sabendo disso, a cunhada de Figueiredo, que é advogada, perguntou se ele poderia desenvolver um software para ajudá-la no uso de correspondentes jurídicos. Assim, ele percebeu a quantidade de dados disponíveis no segmento que não estavam sendo usados e encontrou uma oportunidade de negócio.
Em paralelo à história dos amigos, Vanessa Louzada, 41, natural de Rondônia, trabalhava em São Paulo como advogada e era sócia de um escritório focado em direitos difusos, societário e recuperação de crédito. Além disso, tinha contato com o “Anjos do Brasil”, como investidora-anjo e dando mentorias jurídicas aos empreendedores do projeto.

Interessada por empreendedorismo e tecnologia, ela via no meio jurídico um potencial inexplorado. “No Brasil, tem mais de um milhão de advogados e 800 mil bacharéis em direito, é um mercado gigante. A quantidade de processos e dados é absurda”, conta a empreendedora.

Vanessa sugeriu para Rosely Cruz, sua sócia da época, a criação de um software que, por meio da análise de dados, entregasse insights inteligentes de uma forma simples. Elas contrataram desenvolvedores para tocar o projeto, mas perceberam que ainda era necessário um aprofundamento no monitoramento e automação de dados.

Em 2018, por meio do projeto “Anjos do Brasil”, Vanessa descobriu o software de predição de dados jurídicos que Figueiredo e Rezende estavam desenvolvendo e propôs um trabalho em grupo. Nasceu, assim, a Deep Legal.

Logo no começo da empresa, Vanessa decidiu sair do escritório de advocacia no qual trabalhava para focar totalmente na nova empresa. “Eu vi a oportunidade de transformar o ambiente jurídico, tão tradicional e fechado, em algo mais voltado para dados e tecnologia, o que me motivou muito”, explica a empreendedora. Figueiredo e Rezende fizeram o mesmo.

Contrataram mais programadores e, em 2019, inauguraram a Deep Legal para o mercado. À princípio, a empresa oferecia três produtos principais: O “Monitor”, responsável pelo monitoramento dos dados, o “Compare”, que comparava a performance dos juízes e advogados e o “Predict”, que analisava qual parte tinha mais chance de ganhar ou perder os processos.

“A coleta de dados é feita por 200 robôs, que entram toda semana nos sites da justiça, da primeira e da segunda instância, do Brasil inteiro, nas áreas civil e trabalhista. As buscas são feitas através dos números dos processos, do CNPJ das partes e dos nomes dos juízes. Assim, os algoritmos fazem os agrupamentos e nos mostram os resultados”, explica Louzada.

Atualmente, a empresa conta com uma equipe de 14 pessoas, entre desenvolvedores de sistema e profissionais de marketing e serviços ao consumidor. Os principais clientes são empresas e escritórios de advocacia de grande e médio porte, em sua maioria localizados em São Paulo.

A lawtech acerta 84% das previsões judiciais e analisa, por mês, 500 mil novos processos. O faturamento mensal é de R$ 350 mil, em média.

Durante a pandemia, com o crescimento do mercado digital, a Deep Legal dobrou em tamanho e cresceu 4,5 vezes em faturamento. “Todas as áreas da nossa vida são digitais e a necessidade de transformação também afetou o mercado jurídico. Hoje em dia, junto com o conhecimento teórico, é essencial ter dados”, justifica a empreendedora.

Em relação ao futuro, os empreendedores querem desenvolver mais soluções para escritórios pequenos e aumentar o time. Além disso, pretendem continuar contribuindo para a mudança do paradigma jurídico para o universo digital. “O jurídico é visto como o ‘patinho feio’, como a dor de cabeça das empresas. Queremos mudar esse pensamento e mostrar que o jurídico é investimento”, conta Vanessa.

Fonte: Pequenas Empresas Grandes Negócios

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